quarta-feira, 11 de junho de 2014

O tema do amor em Freud parte 1

     O que diz Freud sobre o amor?




O tema do amor é uma constante em Freud, desde suas primeiras observações pré-psicanalíticas sobre sofrimento e adoecimento psíquico e mais tarde e especialmente em escritos posteriores. Uma vez que o amor é elemento essencial tanto no adoecimento quanto no tratamento e cura psíquicos, é preciso saber do próprio Freud sua definição de amor.

“Em sua origem, função e relação com o amor sexual, o ‘Eros’ do filósofo Platão coincide exatamente com a força amorosa, a libido da psicanálise, tal como foi pormenorizadamente demonstrado por Nachmansohn (1915) e Pfister (1921), e, quando o apóstolo Paulo, em sua famosa Epístola aos Coríntios, louva o amor sobre tudo o mais, certamente o entende no mesmo sentido ‘mais amplo’. Mas isso apenas demonstra que os homens nem sempre levam a sério seus grandes pensadores, mesmo quando mais professam admirá-los. A psicanálise, portanto, dá a esses instintos amorosos o nome de instintos sexuais, a posteriori e em razão de sua origem. Muitas pessoas ‘instruídas’ encararam essa nomenclatura como um insulto e fizeram sua vingança classificando a psicanálise como ‘pansexualismo’. Qualquer pessoa que considere o sexo como algo mortificante e humilhante para a natureza humana está livre para empregar as expressões mais polidas ‘Eros’ e ‘erótico’. Eu poderia ter procedido assim desde o começo e me teria poupado muita oposição. Mas não quis fazê-lo, porque me não me agrada fazer concessões à covardia. Nunca se pode dizer até onde esse caminho nos levará; cede-se primeiro em palavras e depois, pouco a pouco, em substância também. Não posso ver mérito algum em se ter vergonha do sexo; a palavra grega ‘Eros’, destinada a suavizar a afronta, ao final nada mais é do que tradução de nossa palavra alemã Liebe [amor], e finalmente, aquele que sabe esperar não precisa fazer concessões.
  
     Tentaremos nossa sorte, então, com a suposição de que as relações amorosas (ou, para empregar expressão mais neutra, os laços emocionais) constituem também a essência da mente grupal.
In: Psicologia de grupo e análise do ego, 1921,  vol XVIII

Assim, quando Freud diz que “as relações amorosas, ou se preferirmos, os laços emocionais, constituem também a essência da mente grupal”, sem dúvida é porque constituem primeiramente a essência da mente individual. Eros é, portanto, um conceito extenso para Freud e está presente em todas as relações humanas, se mantivermos o pressuposto de que em toda relação há afetos e emoções. Trata-se, portanto, do mesmo objeto que pode ser traduzido em termos diferentes de acordo com a perspectiva (ou a preferência): Eros = instintos sexuais = investimentos libidinais = instintos amorosos = laços emocionais.
Embora Freud tenha insistido em defender sua visão de um Eros amplo, de modo geral ainda permanece a visão prosaica de que a sexualidade em seu trabalho sempre se refere a uma hiper-genitalização – tudo é sexo!

O leitor reencontrará a referência ao Eros de Platão, quase inalterada, nos 3 ensaios (1905), e em sua troca de correspondência com Einstein (Por quê a guerra?, 1932), e verá ao longo de seus escritos  um Freud que transita entre a neurobiologia e a poesia, à medida que descobre e constrói uma ferramenta capaz de explorar o amplo campo do amor.

“Com frequência muito especial verifica-se que os melancólicos são anestésicos. Não têm necessidade de relação sexual (e não têm a sensação correlata). Mas têm um grande anseio pelo amor em sua forma psíquica - uma tensão erótica psíquica, poder-se-ia dizer”.  (Trecho retirado do RASCUNHO E: COMO SE ORIGINA A ANGÚSTIA, vol I das Obras completas, escrito entre 1892 e 1899, e é uma entre muitas outras anotações de um Freud pré-psicanalítico, em um período equivalente a uma “corrida do ouro da psicopatologia”, em que ele como tantos outros aventureiros começavam a tentar entender o funcionamento da psique)


Distorções do desejo

Precisamos primeiro aqui de dois conceitos, o primeiro é investimento. Penso que as palavras dão testemunho da distorção que o desejo lhes causa à medida que aproxima “quero que seja” e “é”. Acredito que um exemplo disto é a palavra investimento. De modo geral nossa noção de investimento é confortavelmente monetária: depositar dinheiro/energia em um objeto externo, o que pode resultar em ganho ou perda de capital. Originalmente, em psicanálise e na escrita de Freud, o sentido de investimento/catexia é o oposto: ser ocupado por algo que invade, espalha-se, e toma, ocupa.

Basicamente, somos cofrinhos no qual moedas feitas de nossa própria energia vão se enfiando à nossa revelia. Somos ocupados por nossos objetos de amor, que são criados por nós mesmos, e que agem como soldados de um exército de ocupação. Temos aqui o segundo conceito, objeto. Tomamos objeto por algo inanimado e manipulável, penso que o mesmo acontece em expressões como objeto sexual, com o sentido de “faço disto o que quiser, sou o senhor que controla e sou invulnerável”. Quem dera! Embora haja diferentes e elaboradas noções de objeto, há algo em comum entre elas: são alheios a nosso desejo, fugidios, e de grande plasticidade. No desenho animado, quando Tom pega Jerry, o ratinho abre um impossível e divertido zíper em meio às mãos do gato e escapa, se Tom consegue se livrar de Jerry, fica entediado, e precisa busca-lo de volta, se Tom desiste de perseguir Jerry, o ratinho vem provoca-lo, coloca em suas mãos um taco de baseball e começam novamente sua rotina.



“Eu te amo, cara”

Guardo com carinho uma anedota de bar contada por um amigo. Sentado em uma mesa próxima, ele acompanhou a conversa entre dois camaradas que, tomando cerveja, queixavam-se de suas esposas e confirmavam o tempo todo como os dois, juntos ali, bebendo, papeando e compartilhando seu universo comum era algo muito superior às suas vidas conjugais. Sempre que o dono do bar, figura muito bem humorada e de sabedoria particular, provavelmente decorrente de anos de escuta de buteco, vinha para trazer outra garrafa cheia à mesa, os amigos pediam sua confirmação: “Mulher só dá trabalho, é ou não é?”, “Nada como bater uma bolinha e conversar do que interessa, é ou não é?”. Depois de muitas cervejas e muitos pedidos de confirmação, o dono do bar perde a paciência, e diz: “É, vocês então vão sair pra jogar bola juntos, tomar cerveja juntos, conversar, aí, no fim da noite, vocês vão pra casa e dormem juntos também, que tal?” Ficaram indignados. “Ô loco, cara! Que história é essa!” Mas passaram horas fazendo declarações de amor um pro outro, dizendo “o que há entre nós é especial, o prazer que tenho com você, não tenho em casa”. Faltou só um “Eu te amo, cara”. O que o dono do bar pergunta, genialmente, é “Até onde vai o amor de vocês”? A resposta é simples. Surpreendidos com a situação, os amigos reafirmam a forma como decidiram delimitar e realizar seu amor – seus instintos sexuais, ou, se preferirmos, seus laços emocionais, não terão uma realização genital.

Menos sorte teve Daniel-Paul Schreber, famoso caso de enlouquecimento de um prestigiado juiz que, em sua autobiografia Memória de um doente dos nervos, faz uma detalhada descrição da perda de sua sanidade e do intrincado sistema religioso que construiu, no qual ele seria fecundado por Deus e geraria uma nova raça de homens. O próprio Schreber identificava o ponto em que a doença irrompeu como o momento em que lhe surge um pensamento: “seria bom ser uma mulher no ato da cópula”.  Deste ponto em diante, seu mundo se fragmenta em delírios de perseguição, especialmente direcionados ao médico que lhe ajudou em duas internações, o Dr. Flechsig, a quem ele havia se afeiçoado muito. Na leitura de Freud, Flechsig representava  inconscientemente uma figura paterna, e o afeto era indício de uma transferência (sic) homossexual, uma expressão, inaceitável para Schreber, de amor pelo mesmo sexo.
   
                         

                                                Bromance ou romance?

          O amor em si não sabe ao que pode e ao que não pode se ligar. O amor não se manifesta com um julgamento de adequação, o amor passa por um julgamento de adequação, em que buscamos decidir e permitir o que e como amar. 


(fim da parte 1, na próxima, Amor e dor, e Édipo)


Textos visitados para o post:

Freud: Rascunho  E: como se origina a angústia, vol I; Três ensaios sobre a sexualidade, 1905; Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia, 1911; Psicologia de grupo e análise do ego, 1921;  Por que a guerra? 1932. Laplanche & Pontalis, Vocabulário da psicanálise; Hanns, Dicionário comentado do alemão de Freud.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Seriedade e brincadeira

Observe o brincar das crianças. Passam horas definindo as regras de suas brincadeiras, posicionando brinquedos, ou simplesmente absortas, profundamente envolvidas com seja lá qual for seu objeto de jogo no momento.
Em O poeta e o fantasiar, artigo de Freud pessimamente traduzido para o português como Escritores criativos e devaneios, Freud diz que não há oposição entre brincadeira e seriedade - brincadeira é fantasia, o que se opõe à fantasia é a realidade.

A antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real. Apesar de toda a emoção com que a criança investe seu mundo de brinquedo, ela o distingue perfeitamente da realidade, e gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’ infantil do ‘fantasiar’. (Freud, 1907)

A seriedade dos adultos

Seriedade pode ser lida como tipos de respeito diferentes, de um lado é a apropriação íntima de um objeto (pegarei isto para brincar), e assim, é possível investigá-lo, desmontá-lo, explorá-lo, ou em perspectiva oposta, tratá-lo com outro um tipo particular de respeito, que é a reverência que se tem aos tabus e dogmas – não são para tocar, você aprende e reproduz. Lembro-me de minha surpresa em uma das bienais de arte de São Paulo em que, cercado por obras que vinham sempre com o aviso ‘Proibido tocar’, deparei com Os bichos de Lygia Clark, expostos sobre uma mesa com os dizeres, ‘Por favor, toque’.



Tanto em O poeta e o fantasiar quanto em O humor (1927), Freud aponta como a possibilidade de brincar com a realidade pede um equilíbrio dinâmico entre extremos. Se nos aproximamos demais da fantasia, perdemos a condição de diálogo com o mundo externo e de viver em alguma sintonia com outros indivíduos cuja frequência, como no rádio, permita entender e transmitir ideias e emoções. Se nos aproximamos demais da realidade perdemos a condição de criar, adquirimos automatismo funcional concreto, sem abstração.

Entre extremos

Em O humor, Freud retoma uma piada de que gostava: “Um criminoso, levado à forca numa segunda-feira, comenta: ‘Bem, a semana está começando otimamente’”, e apresenta assim um aspecto inusitado do superego, como uma instância que pode dizer ao ego “Veja! Aqui está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças, digno apenas que sobre ele se faça uma boa piada!”.
A brincadeira e o humor são recursos preciosos que Freud discute nos dois artigos mencionados, que retomam questões abertas em Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), e deixa em aberto algumas questões que são de interesse para os clínicos: (1) O extremo da comédia, fazer piada de tudo, convida ao esvaziamento e dissociação da importância das experiências vividas, como um recurso de defesa que economiza ao indivíduo sofrer o afeto enquanto o mantém distante dele; (2) O desejo de corresponder à realidade e abraçar as responsabilidades da vida e do trabalho (obrigações, contas, vida social, etc.) dos meios aos quais nos filiamos nos aproxima de uma mortificação melancólica ao constatar que o mundo tem características pavorosas que nos interpelam o tempo todo com abuso sexual, violência doméstica, morte, doenças terminais, assassinato, corrupção e mais, sem evitar o convite ao distanciamento da realidade através da idealização da norma, manifesta em uma supervalorização das leis e da religião.
Recordo-me sempre de um professor muito querido que contava que, em viagem pela América Latina deparou em um restaurante com a pintura de um palhaço sobre um triciclo, em uma corda bamba, com dizeres em vermelho escritos na tela “Ai Jesus, que equilíbrio tu me pedes”. Não escapamos da necessidade de uma medida de transgressão, entre o imperativo de aproximarmo-nos das regras e, na outra extremidade, exercitar uma criatividade rebelde entre elementos da vida de naturezas diferentes como os brinquedos das crianças: o sucesso dos quebra-cabeças consiste em desvendar regras fixas e segui-las, os blocos de Lego oferecem regras fixas de encaixe, mas com combinações infinitas, e é sempre possível, numa sala de aula, dobrado durante anos a fio numa carteira escolar, em algum momento, juntar uma caneta BIC e uma régua e fazer um avião.

ps.: Feliz aniversário, caro Sigmund

Textos visitados e recomendados: 
Freud: Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905); Escritores criativos e devaneios (1907); O humor (1927); Henri Bergson: Ensaio sobre a significação do cômico (1900); Daniel Kupermann: Ousar rir (2003) 


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Simples

Gosto de ver como as palavras carregam, ao mesmo tempo, sentidos muito variados, e com frequência opostos.
Por exemplo, “simples”. Vejo com frequência a palavra usada com o sentido de “fácil, que não apresenta dificuldade”. Nunca me esqueço de uma história que ouvi de uma amiga, muitos anos atrás. Ela procurou um ourives para colar de volta um brilhante que havia soltado de seu anel. O homem pegou o anel e desapareceu por alguns minutos, voltou, devolveu a peça e disse o preço. “São sessenta reais”. “SESSENTA REAIS?!! Mas isso é muito caro! O senhor levou  5 minutos para fazer o serviço!”. O homem responde “Minha senhora levei 50 anos para colar seu anel em 5 minutos”.

Intimidade

Entre 5 de dezembro de 1945 e 17 de janeiro de 1946 Picasso produziu 11 ilustrações do mesmo objeto, um touro. Continuamente brincando com a imagem foi fazendo novas versões, gradualmente simplificando o desenho até sua essência, uma forma mais econômica e sofisticada. Levou 40 dias para simplificar um desenho, e, como ele mesmo dizia, levou 4 anos para pintar como Rafael, mas levou uma vida inteira para pintar como uma criança.



Simplificar dá trabalho, é preciso tempo e intimidade. Até a lasanha de microondas que colocamos no forno e fica pronta em minutos levou anos de aperfeiçoamento e pesquisa para ser o que é.
Lembro destas histórias quando sinto pressa, e quando ouço pessoas com pressa, especialmente nas frases com “só”: “É só fazer tal e tal coisa, não entendo porque não vou e realizo logo o que quero”. 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Amai o próximo como a ti mesmo


     Dia desses em conversa de bar, ouvi de um amigo sua teoria sobre um dos elementos do sucesso do Porta dos Fundos. De acordo com ele é, predominantemente, um humor de identificação, e não de estranhamento. Ao assistir, o espectador reencontra elementos de sua vida cotidiana e se reconhece “também me sinto assim, também passei por isso”. Que é basicamente “Como é gostoso ver meu drama encenado na internet, e que delícia saber que o mundo é igual a mim”. Cafuné no narcisismo.
     

     Em seu artigo sobre o narcisismo (1914) Freud aponta três tipos de amor narcísicos:
(1) a pessoa ama o que ela é, 
(2) a pessoa ama o que ela foi e 
(3) a pessoa ama o que ela gostaria de ser. 

     Assim, o narcisismo é em parte amor por si e em parte amor pelo outro, desde que ele espelhe a si mesmo ou mostre o que gostaríamos de ser/ter. Uma vez escolhido o objeto (homem ou mulher, com as características desejadas), o indivíduo sente realização ao encontrar um igual ou ao encontrar espelhado no outro o complemento que idealizava.

     Diante da possibilidade de criar algo sem considerar o público, a primeira pergunta que eu faria seria é “Quem em sã consciência cria um produto para aborrecer o outro?”. Mas não se trata de planejar intencionalmente o aborrecimento alheio, mas de um processo criativo que não tenha como finalidade primeira o sucesso do consumo. Lembro-me de outra conversa com amigos que comentavam sobre como achavam absurda a condição do professor diante do desrespeito dos alunos e arrogância dos pais na situação de ensino, remetendo a relação professor-aluno/família ao pervasivo “Você é pago para isso, faça seu trabalho”. Não só entendo as crianças e os pais, como penso que estão certos em sua expectativa sobre os produtos que consomem. A lógica de “O cliente tem sempre razão” se estende a todas as relações que passam pelo dinheiro e ainda outras. Sob a bandeira da flexibilidade e especificidade das necessidades individuais os produtos vão sendo moldados para a satisfação do cliente, e o cliente vai sendo convidado a ser satisfeito em sua expectativa. Entendo que é a troca sutil de liberdade por aceitação.
     

     Meu dicionário etimológico me conta que, no começo do século 15, em latim , producere significava “desenvolver, proceder, extender; gerar, fazer surgir, trazer/guiar à existência”. Entendo que hoje o sentido comum de produto está diretamente ligado a um processo de falsa alfaiataria, um fazer sob medida que almeja garantir o consumo através da venda, em meio à concorrência.
     

     Não saberei retomar o exato diálogo, mas resgato uma situação. Em apresentação ocorrida anos atrás na Unifran, de Franca, uma professora falava da relação entre o analista e seu paciente, e de como recebê-lo. Alguém da plateia comentou que para ela aquilo correspondia ao ditado “amai ao próximo como a ti mesmo”. A professora não concordava, e disse que considerava uma forma de torpe de violência amar o próximo como a si mesmo, pois é oferecer ao outro o que eu espero que ele deseje, sem que haja espaço de fato para sequer saber o que o outro deseja.
     

    Em conclusão, me parece comum esperar e ter prazer em encontrar um mundo igual a si e não ter paladar para outras configurações.

Freud e os novos estudos de neuroimagem

Em Maio de 2011 ouvi comentário de um amigo psiquiatra sobre artigo publicado na revista Nature, grande publicação científica internacional, que trazia estudo que mostrava que cientistas foram capazes de criar, em laboratório, células com defeitos característicos da esquizofrenia, e idênticas às encontradas no córtex de esquizofrênicos. O parágrafo de abertura do texto começava com as seguintes palavras: “A esquizofrenia é um debilitante transtorno neurológico...”. A sutil importância destas poucas palavras é que localiza a esquizofrenia não no campo da psiquiatria, mas da neurologia. Não se trata unicamente de disputa territorial, mas também de etiologia (causa) e terapêutica (tratamento), pois é a hipótese etiológica que aponta o tratamento. Se tem dúvida, recorde-se das discussões recentes sobre hiperatividade e  vai ter uma dimensão da encrenca. Caso a hiperatividade exista, e seja de fato neurológica, o primeiro curso de tratamento é a introdução de medicação, se tiver base fisiológica e ambiental, seu lugar é mais próximo da psiquiatria, se sua origem estiver na intimidade das relações familiares e suas interações, seu lugar é na psicologia. A ideia mais linda seria que estes três ramos dessem as mãos numa corrente de respeito mútuo visando o bem comum. Sou um amigo do diálogo, assim como certamente você o é, leitor, um profissional interdisciplinar. Ainda assim, a etiologia define a doença e o tratamento.

 Não pretendo incitar ninguém a perseguir com ancinho e tocha outro profissional liberal. Trata-se de acompanhar esta chama de flerte reacendida entre a psicanálise de Freud e a ciência com seus novos brinquedos.

Tenho visto um aumento nos estudos que se apoiam em Freud para testar hipóteses, e que tem me deixado com uma pulga atrás da orelha: comprovar a teoria freudiana através de estudos de imagem não é o mesmo que comprovar a eficácia da terapêutica criada por Freud.

Ressalto 3 artigos recentes que vem circulando pela internet, e que tangenciam o nó neuro-psicanalitico:
1)      Entre outros projetos criativos, o brasileiro Sidarta Ribeiro tem investigado, em ratos e em humanos, as propriedades dos sonhos e seu potencial de aprendizado. O estudo é realizado observando a atividade neural do sujeito, alternadamente, durante o sono e em um labirinto. Os dados mostram que as mesmas áreas do cérebro aparecem ativadas, indicando que durante o sono tanto humanos quanto ratos revisitam o labirinto em busca de soluções.
2)      Ao terminar de ler na Exame reportagem referente ao estudo de Aybek & col. publicado em janeiro de 2014, a conclusão óbvia para mim foi “a histeria é uma doença neurológica”. O texto relata estudo do King’s College com a Universidade de Melbourne em que exames de neuroimagem apontam a possibilidade de confirmação da tese freudiana de que a conversão histérica se dá por repressão de afetos e lembranças. A reportagem original em inglês é menos empolgada e cheia de dados chatos e importantes sobre metodologia usada, áreas do cérebro avaliadas e link para o estudo original. Resumo aqui.
3)      O terceiro artigo é do mexicano Raul Miranda Arce, psiquiatra e psicanalista mexicano, e foi publicado na Calibán, Revista Latino-Americana de Psicanálise (você deveria ler, está na internet em português e é de graça). Arce discute como os achados recentes sobre as funções do sistema límbico, especialmente de duas estruturas (a amígdala e o hipocampo), e resultados obtidos em estudos feitos com populações específicas (pacientes que sofreram abuso sexual), permitem uma leitura do adoecimento mental e da clínica psicanalítica que são complementares. Se conhecer uma única especialidade já é difícil, imagine articular bem duas delas.
                
Outra parte que me importa nesta discussão fora a questão etiologia-terapêutica é uma pergunta: Por que tanto amor pela imagem se trabalhamos com palavras?. Desde os Estudos sobre histeria temos relatos que são facilmente confirmados com observação clínica de que as palavras modificam os corpos, tanto no adoecimento quanto no tratamento, e não vejo que grande diferença as imagens possam fazer, a não ser o prazer de dizer “Viu? Eu não disse?”. Reconheço também que há  um grande fantasma de validação que pede para ser aplacado, uma vez que trabalhamos com fatos imateriais. Não vale a pena dar atenção a ele, as palavras são mais importantes, e é preciso trabalhar sem precisar ser amado por todos. Talvez a melhor referência da eficácia simbólica das palavras ainda seja o texto de Levy-Strauss.

Em seu livro Com uma perna só, de 1984, o neurologista Oliver Sacks escreve: “A neuropsicologia, como a neurologia clássica, busca ser inteiramente objetiva, e seu grande poder, assim como seus avanços, vem unicamente disto. Mas um ser vivo, e, especialmente um ser humano, é em primeira e última instância... um sujeito, não um objeto. E é precisamente o sujeito, o “Eu” vivo, que é excluído da neurologia”.

Os testes laboratoriais em sua mais séria e útil perspectiva permitem isolar e reduzir o sujeito a um organismo, com o ônus de dessubjetivar a prática clínica e transformar a relação entre pessoas sob este prisma*. A frase não é minha, é da psicanalista e psiquiatra Liana Albernaz de Melo Bastos. Sem dúvida aposto na utopia do diálogo, mas não aposto na validação da psicanálise através de outras áreas do conhecimento.

Das referências abaixo, insisto para conferir a Calibán.

Sobre reprodução in vitro de células com características da esquizofrenia: http://www.nature.com/nature/journal/v473/n7346/full/nature09915.html
Artigo da equipe do brasileiro Sidarta Ribeiro, Sonho, memória e o reencontro de Freud com o cérebro: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-44462003000600013&script=sci_arttext
O estudo sobre neuroimagem da histeria, de S. Aybek: http://archpsyc.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1780023
O artigo na Calibán, sobre como nosso cérebro se modifica com traumas e de como as palavras podem modificar dano, de R.M.Arce: http://issuu.com/fepalpublicaciones/docs/caliban10port
*Você encontra esta ideia muito melhor desenvolvida em Psicanálise Baseada em Evidências?, artigo de Liana Albernaz de Melo Bastos. Está na PHYSIS, Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 12(2):391-408, 2002. Tem em livro também.

Ação diferida

     Ação diferida: pt. A posteriori, Só-depois, al. Nachträglichkeit esp. Posterioridad; fr. Après-coup; ing. Deferred action.

     Na definição de Luiz Hanns, em seu Dicionário comentado do alemão de Freud, é um termo que evoca a ideia de que o sujeito se afastou temporalmente do evento e agora, com a devida distância, reconsidera (rearranja mentalmente) o significado do evento. É como se a partir de um ponto de observação mais afastado do evento, o sujeito pudesse então avalia-lo de forma diferente. Em alemão nachträglich enfoca a permanência de uma conexão entre o agora e o momento de então, mantendo ambos ligados. Pode-se “carregar o passado para uma nova visão”, o que leva a um retorno e a um acréscimo de algo que faltava, ou então pode-se trazer ,carregar do passado para o presente o evento antigo e acrescentar-lhe algo, atualizando-o.  
   
     Penso que  é neste tempo, extenso e condensado, que os pensamentos, sentimentos e experiências vão constantemente tomando forma.Uma ponte dinâmica entre o presente e o passado que atualiza os dois tempos. Deste processo surgem tanto os sintomas quanto a arte, tanto as repetições quanto as mudanças. Ao ler e escrever percorremos esta ponte com a chance de compartilhar com outros ideias e  inquietações que atualizam nosso agora. E por isso, um novo blog.