Gosto de ver como as palavras carregam, ao mesmo tempo,
sentidos muito variados, e com frequência opostos.
Por exemplo, “simples”. Vejo com frequência a palavra usada
com o sentido de “fácil, que não apresenta dificuldade”. Nunca me esqueço de
uma história que ouvi de uma amiga, muitos anos atrás. Ela procurou um ourives
para colar de volta um brilhante que havia soltado de seu anel. O homem pegou o
anel e desapareceu por alguns minutos, voltou, devolveu a peça e disse o preço.
“São sessenta reais”. “SESSENTA REAIS?!! Mas isso é muito caro! O senhor levou 5 minutos para fazer o serviço!”. O homem
responde “Minha senhora levei 50 anos para colar seu anel em 5 minutos”.
Intimidade
Entre 5 de dezembro de 1945 e 17 de janeiro de 1946 Picasso
produziu 11 ilustrações do mesmo objeto, um touro. Continuamente brincando com
a imagem foi fazendo novas versões, gradualmente simplificando o desenho até
sua essência, uma forma mais econômica e sofisticada. Levou 40 dias para
simplificar um desenho, e, como ele mesmo dizia, levou 4 anos para pintar como Rafael, mas levou uma vida inteira para pintar como uma criança.
Simplificar dá trabalho, é preciso tempo e intimidade. Até a lasanha de microondas que
colocamos no forno e fica pronta em minutos levou anos de aperfeiçoamento e pesquisa
para ser o que é.
Lembro destas histórias quando sinto pressa, e quando ouço
pessoas com pressa, especialmente nas frases com “só”: “É só fazer tal e tal
coisa, não entendo porque não vou e realizo logo o que quero”.

Carlos, adorei este texto! Ficou muito bom. Simples, rs... e Bom!!!
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