O que diz Freud
sobre o amor?
Tentaremos nossa sorte, então, com a suposição de que as relações amorosas (ou, para empregar expressão mais neutra, os laços emocionais) constituem também a essência da mente grupal.
“Com frequência muito especial verifica-se que os melancólicos são anestésicos. Não têm necessidade de relação sexual (e não têm a sensação correlata). Mas têm um grande anseio pelo amor em sua forma psíquica - uma tensão erótica psíquica, poder-se-ia dizer”. (Trecho retirado do RASCUNHO E: COMO SE ORIGINA A ANGÚSTIA, vol I das Obras completas, escrito entre 1892 e 1899, e é uma entre muitas outras anotações de um Freud pré-psicanalítico, em um período equivalente a uma “corrida do ouro da psicopatologia”, em que ele como tantos outros aventureiros começavam a tentar entender o funcionamento da psique)
Basicamente, somos cofrinhos no qual moedas feitas de nossa própria energia vão se enfiando à nossa revelia. Somos ocupados por nossos objetos de amor, que são criados por nós mesmos, e que agem como soldados de um exército de ocupação. Temos aqui o segundo conceito, objeto. Tomamos objeto por algo inanimado e manipulável, penso que o mesmo acontece em expressões como objeto sexual, com o sentido de “faço disto o que quiser, sou o senhor que controla e sou invulnerável”. Quem dera! Embora haja diferentes e elaboradas noções de objeto, há algo em comum entre elas: são alheios a nosso desejo, fugidios, e de grande plasticidade. No desenho animado, quando Tom pega Jerry, o ratinho abre um impossível e divertido zíper em meio às mãos do gato e escapa, se Tom consegue se livrar de Jerry, fica entediado, e precisa busca-lo de volta, se Tom desiste de perseguir Jerry, o ratinho vem provoca-lo, coloca em suas mãos um taco de baseball e começam novamente sua rotina.
Guardo com carinho uma anedota de bar contada por um amigo. Sentado em uma mesa próxima, ele acompanhou a conversa entre dois camaradas que, tomando cerveja, queixavam-se de suas esposas e confirmavam o tempo todo como os dois, juntos ali, bebendo, papeando e compartilhando seu universo comum era algo muito superior às suas vidas conjugais. Sempre que o dono do bar, figura muito bem humorada e de sabedoria particular, provavelmente decorrente de anos de escuta de buteco, vinha para trazer outra garrafa cheia à mesa, os amigos pediam sua confirmação: “Mulher só dá trabalho, é ou não é?”, “Nada como bater uma bolinha e conversar do que interessa, é ou não é?”. Depois de muitas cervejas e muitos pedidos de confirmação, o dono do bar perde a paciência, e diz: “É, vocês então vão sair pra jogar bola juntos, tomar cerveja juntos, conversar, aí, no fim da noite, vocês vão pra casa e dormem juntos também, que tal?” Ficaram indignados. “Ô loco, cara! Que história é essa!” Mas passaram horas fazendo declarações de amor um pro outro, dizendo “o que há entre nós é especial, o prazer que tenho com você, não tenho em casa”. Faltou só um “Eu te amo, cara”. O que o dono do bar pergunta, genialmente, é “Até onde vai o amor de vocês”? A resposta é simples. Surpreendidos com a situação, os amigos reafirmam a forma como decidiram delimitar e realizar seu amor – seus instintos sexuais, ou, se preferirmos, seus laços emocionais, não terão uma realização genital.
Menos sorte teve Daniel-Paul Schreber, famoso caso de enlouquecimento de um prestigiado juiz que, em sua autobiografia Memória de um doente dos nervos, faz uma detalhada descrição da perda de sua sanidade e do intrincado sistema religioso que construiu, no qual ele seria fecundado por Deus e geraria uma nova raça de homens. O próprio Schreber identificava o ponto em que a doença irrompeu como o momento em que lhe surge um pensamento: “seria bom ser uma mulher no ato da cópula”. Deste ponto em diante, seu mundo se fragmenta em delírios de perseguição, especialmente direcionados ao médico que lhe ajudou em duas internações, o Dr. Flechsig, a quem ele havia se afeiçoado muito. Na leitura de Freud, Flechsig representava inconscientemente uma figura paterna, e o afeto era indício de uma transferência (sic) homossexual, uma expressão, inaceitável para Schreber, de amor pelo mesmo sexo.
Bromance ou romance?
O amor em si não sabe ao que pode e ao que não pode se ligar. O amor não se manifesta com um julgamento de adequação, o amor passa por um julgamento de adequação, em que buscamos decidir e permitir o que e como amar.
(fim da parte 1, na próxima, Amor e dor, e Édipo)
O tema do amor é uma constante em Freud,
desde suas primeiras observações pré-psicanalíticas sobre sofrimento e adoecimento
psíquico e mais tarde e especialmente em escritos posteriores. Uma vez que o
amor é elemento essencial tanto no adoecimento quanto no tratamento e cura
psíquicos, é preciso saber do próprio Freud sua definição de amor.
“Em sua origem,
função e relação com o amor sexual, o ‘Eros’ do filósofo Platão coincide
exatamente com a força amorosa, a libido da psicanálise, tal como foi
pormenorizadamente demonstrado por Nachmansohn (1915) e Pfister (1921), e,
quando o apóstolo Paulo, em sua famosa Epístola aos Coríntios, louva o amor
sobre tudo o mais, certamente o entende no mesmo sentido ‘mais amplo’. Mas isso
apenas demonstra que os homens nem sempre levam a sério seus grandes
pensadores, mesmo quando mais professam admirá-los. A psicanálise, portanto, dá
a esses instintos amorosos o nome de instintos sexuais, a posteriori e
em razão de sua origem. Muitas pessoas ‘instruídas’ encararam essa nomenclatura
como um insulto e fizeram sua vingança classificando a psicanálise como
‘pansexualismo’. Qualquer pessoa que considere o sexo como algo mortificante e
humilhante para a natureza humana está livre para empregar as expressões mais polidas
‘Eros’ e ‘erótico’. Eu poderia ter procedido assim desde o começo e me teria
poupado muita oposição. Mas não quis fazê-lo, porque me não me agrada fazer
concessões à covardia. Nunca se pode dizer até onde esse caminho nos levará;
cede-se primeiro em palavras e depois, pouco a pouco, em substância também. Não
posso ver mérito algum em se ter vergonha do sexo; a palavra grega ‘Eros’,
destinada a suavizar a afronta, ao final nada mais é do que tradução de nossa
palavra alemã Liebe [amor], e finalmente, aquele que sabe esperar não
precisa fazer concessões.
Tentaremos nossa sorte, então, com a suposição de que as relações amorosas (ou, para empregar expressão mais neutra, os laços emocionais) constituem também a essência da mente grupal.
In: Psicologia
de grupo e análise do ego, 1921, vol
XVIII
Assim, quando Freud diz que “as relações
amorosas, ou se preferirmos, os laços emocionais, constituem também a essência da mente grupal”, sem
dúvida é porque constituem primeiramente a essência da mente individual. Eros é, portanto, um
conceito extenso para Freud e está presente
em todas as relações humanas, se mantivermos o pressuposto de que em toda
relação há afetos e emoções. Trata-se, portanto, do mesmo objeto que pode ser
traduzido em termos diferentes de acordo com a perspectiva (ou a preferência): Eros
= instintos sexuais = investimentos libidinais = instintos amorosos = laços
emocionais.
Embora Freud tenha insistido em defender sua
visão de um Eros amplo, de modo geral ainda permanece a visão prosaica de que a
sexualidade em seu trabalho sempre se refere a uma hiper-genitalização – tudo é
sexo!
O leitor reencontrará a referência ao Eros de
Platão, quase inalterada, nos 3 ensaios (1905), e em sua troca de
correspondência com Einstein (Por quê a guerra?, 1932), e verá ao longo de seus
escritos um Freud que transita entre a
neurobiologia e a poesia, à medida que descobre e constrói uma ferramenta capaz
de explorar o amplo campo do amor.
“Com frequência muito especial verifica-se que os melancólicos são anestésicos. Não têm necessidade de relação sexual (e não têm a sensação correlata). Mas têm um grande anseio pelo amor em sua forma psíquica - uma tensão erótica psíquica, poder-se-ia dizer”. (Trecho retirado do RASCUNHO E: COMO SE ORIGINA A ANGÚSTIA, vol I das Obras completas, escrito entre 1892 e 1899, e é uma entre muitas outras anotações de um Freud pré-psicanalítico, em um período equivalente a uma “corrida do ouro da psicopatologia”, em que ele como tantos outros aventureiros começavam a tentar entender o funcionamento da psique)
Distorções do desejo
Precisamos primeiro aqui de dois conceitos, o
primeiro é investimento. Penso que as palavras dão testemunho da distorção que
o desejo lhes causa à medida que aproxima “quero
que seja” e “é”. Acredito que um
exemplo disto é a palavra investimento. De modo geral nossa noção de
investimento é confortavelmente monetária: depositar dinheiro/energia em um
objeto externo, o que pode resultar em ganho ou perda de capital. Originalmente,
em psicanálise e na escrita de Freud, o sentido de investimento/catexia é o oposto: ser ocupado por algo que invade,
espalha-se, e toma, ocupa.
Basicamente, somos cofrinhos no qual moedas feitas de nossa própria energia vão se enfiando à nossa revelia. Somos ocupados por nossos objetos de amor, que são criados por nós mesmos, e que agem como soldados de um exército de ocupação. Temos aqui o segundo conceito, objeto. Tomamos objeto por algo inanimado e manipulável, penso que o mesmo acontece em expressões como objeto sexual, com o sentido de “faço disto o que quiser, sou o senhor que controla e sou invulnerável”. Quem dera! Embora haja diferentes e elaboradas noções de objeto, há algo em comum entre elas: são alheios a nosso desejo, fugidios, e de grande plasticidade. No desenho animado, quando Tom pega Jerry, o ratinho abre um impossível e divertido zíper em meio às mãos do gato e escapa, se Tom consegue se livrar de Jerry, fica entediado, e precisa busca-lo de volta, se Tom desiste de perseguir Jerry, o ratinho vem provoca-lo, coloca em suas mãos um taco de baseball e começam novamente sua rotina.
“Eu te amo, cara”
Guardo com carinho uma anedota de bar contada por um amigo. Sentado em uma mesa próxima, ele acompanhou a conversa entre dois camaradas que, tomando cerveja, queixavam-se de suas esposas e confirmavam o tempo todo como os dois, juntos ali, bebendo, papeando e compartilhando seu universo comum era algo muito superior às suas vidas conjugais. Sempre que o dono do bar, figura muito bem humorada e de sabedoria particular, provavelmente decorrente de anos de escuta de buteco, vinha para trazer outra garrafa cheia à mesa, os amigos pediam sua confirmação: “Mulher só dá trabalho, é ou não é?”, “Nada como bater uma bolinha e conversar do que interessa, é ou não é?”. Depois de muitas cervejas e muitos pedidos de confirmação, o dono do bar perde a paciência, e diz: “É, vocês então vão sair pra jogar bola juntos, tomar cerveja juntos, conversar, aí, no fim da noite, vocês vão pra casa e dormem juntos também, que tal?” Ficaram indignados. “Ô loco, cara! Que história é essa!” Mas passaram horas fazendo declarações de amor um pro outro, dizendo “o que há entre nós é especial, o prazer que tenho com você, não tenho em casa”. Faltou só um “Eu te amo, cara”. O que o dono do bar pergunta, genialmente, é “Até onde vai o amor de vocês”? A resposta é simples. Surpreendidos com a situação, os amigos reafirmam a forma como decidiram delimitar e realizar seu amor – seus instintos sexuais, ou, se preferirmos, seus laços emocionais, não terão uma realização genital.
Menos sorte teve Daniel-Paul Schreber, famoso caso de enlouquecimento de um prestigiado juiz que, em sua autobiografia Memória de um doente dos nervos, faz uma detalhada descrição da perda de sua sanidade e do intrincado sistema religioso que construiu, no qual ele seria fecundado por Deus e geraria uma nova raça de homens. O próprio Schreber identificava o ponto em que a doença irrompeu como o momento em que lhe surge um pensamento: “seria bom ser uma mulher no ato da cópula”. Deste ponto em diante, seu mundo se fragmenta em delírios de perseguição, especialmente direcionados ao médico que lhe ajudou em duas internações, o Dr. Flechsig, a quem ele havia se afeiçoado muito. Na leitura de Freud, Flechsig representava inconscientemente uma figura paterna, e o afeto era indício de uma transferência (sic) homossexual, uma expressão, inaceitável para Schreber, de amor pelo mesmo sexo.
Bromance ou romance?
O amor em si não sabe ao que pode e ao que não pode se ligar. O amor não se manifesta com um julgamento de adequação, o amor passa por um julgamento de adequação, em que buscamos decidir e permitir o que e como amar.
(fim da parte 1, na próxima, Amor e dor, e Édipo)
Textos
visitados para o post:
Freud: Rascunho E: como se origina a angústia, vol I; Três ensaios sobre
a sexualidade, 1905; Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um
caso de paranoia, 1911; Psicologia de grupo e análise do ego, 1921; Por que a guerra? 1932. Laplanche &
Pontalis, Vocabulário da psicanálise; Hanns, Dicionário comentado do alemão de
Freud.


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ResponderExcluirCasino Bonus for USA 의정부 출장마사지 Players at JTM Sportsbook 강원도 출장안마 · Get your bonus code: JWRTB2022 강릉 출장마사지 · Deposit Bonus: Get up to $500 · Welcome Offer: 통영 출장안마 Up to 순천 출장샵 $1000 · Deposit Bonus: Get up to $2,000