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quarta-feira, 8 de março de 2017

O tema do amor em Freud - parte 2

O tempo psíquico

Meses atrás, ouvindo e pensando sobre perdas e despedidas dolorosas, me vinha ao pensamento um mito, o de criação da noite.

No início, havia dois irmãos, que viviam sempre juntos, brincavam e caçavam em um dia ensolarado, sem fim. Em certo momento, um deles se afasta do outro, e começa a demorar. O outro irmão vai procura-lo e, perto de seu corpo caído, encontra um punhado de frutas e uma serpente. Seu irmão está morto, e o irmão que está vivo terá que viver sempre no dia que seu irmão morreu. Um deus observa a cena e, por piedade, cria a noite. Por consequência, cria também a passagem do tempo e a chance de esquecimento. “Faz um dia que meu irmão morreu, faz dois que meu irmão...”.

A parte mais útil deste mito não é a invenção de um tempo externo, medido no calendário, mas de um tempo interno, cujo relógio é regido por leis próprias. Sem dúvida é deste tempo que Freud fala quando diz que “os histéricos sofrem de reminiscências”. Não só os histéricos, mas também os saudáveis sofrem por suas lembranças.

Se me permitem uma generalização – inevitável numa exposição tão breve – podemos sintetizar os conhecimentos até agora adquiridos na seguinte fórmula: os histéricos sofrem de reminiscências. Seus sintomas são resíduos e símbolos mnêmicos de experiências especiais (traumáticas). Uma comparação com outros símbolos mnêmicos de gênero diferente talvez nos permita compreender melhor esse simbolismo. Os monumentos com que ornamos nossas cidades são também símbolos dessa ordem. Passeando em Londres, verão, diante de uma das maiores estações da cidade, uma coluna gótica ricamente ornamentada – a Charing Cross. No século XIII, um dos velhos reis plantagenetas, que fez transportar para Westminster os restos mortais de sua querida esposa e rainha Eleanor, erigiu cruzes góticas nos pontos em que havia pousado o esquife. Charing Cross é o último desses monumentos destinados a perpetuar a memória do cortejo fúnebre. Em outro ponto da cidade, não muito distante da London Bridge, verão uma coluna moderna e muito alta, chamada simplesmente ‘The Monument’, cujo fim é lembrar o grande incêndio que em 1666 irrompeu ali perto e destruiu boa parte da cidade. Tanto quanto se justifique a comparação, esses monumentos são também símbolos mnêmicos como os sintomas histéricos. Mas que diriam do londrino que ainda hoje se detivesse compungido ante o monumento erigido em memória do enterro da rainha Eleanor, em vez de tratar de seus negócios com a pressa exigida pelas modernas condições de trabalho, ou de pensar satisfeito na jovem rainha de seu coração? Ou de outro que, em face do ‘Monument’ chorasse a incineração da cidade querida, reconstruída depois com tanto brilho? Como esses londrinos pouco práticos, procedem, entretanto, os histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se prendem a eles emocionalmente; não se desembaraçam do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente. Essa fixação da vida psíquica aos traumas patogênicos é um dos caracteres mais importantes da neurose e dos que têm maior significação prática. Freud, 1910, 5 lições de psicanálise, v. XI

Tomando diferentes momentos de uma única pessoa, temos outro trecho como exemplo:
Parece perfeitamente normal que aos quatro anos de idade uma menina chore penosamente se a sua boneca quebrar-se; ou aos seis, se a governanta reprová-la; ou aos dezesseis, se for desprezada pelo namorado; ou aos vinte e cinco, talvez, se um filho dela morrer. Cada um desses determinantes de dor tem a sua própria época e cada um desaparece quando essa época terminar. Somente os determinantes finais e definitivos permanecem por toda a vida. Devemos julgar estranho se essa menina, depois de ter crescido, se tornado esposa e mãe, fosse chorar por algum objeto sem valor que tivesse sido danificado. Contudo, é assim que se comporta o neurótico. Freud, 1925, Inibições, sintoma e ansiedade, v. XX.

Como o irmão do mito que permanece vivo, há partes de nós cujos relógios param ou movem-se muito devagar, e a intensidade da dor é a mesma ou próxima do dia do evento de nossa perda. São elementos do passado que acontecem continuamente, no agora. Assim, quem conta comovido “perdi meu irmão dois anos atrás”, quando o conta, pode estar muito próximo, emocionalmente, de estar dizendo “acabo de perder meu irmão” ou ainda “estou perdendo meu irmão neste momento. Conheço e reconheço este momento, a cada vez que ele volta”. Sei que esta imagem é pavorosa, e não tenho dúvida que muitas das nossas distorções de vocabulário servem para mitigar pavores e assombros semelhantes, sempre com a finalidade necessária, algo maníaca, de afirmar “está tudo bem”. Penso que deste modo podemos abordar de forma mais achatada – plana – questões que são poliédricas. Por exemplo, a fixação contemporânea no gênero dos objetos de amor escolhidos, deixando de lado toda a imensa variedade de fantasias que buscam ser satisfeitas nos alvos e metas das pulsões, ou, de modo mais claro, nos preocupamos com a superfície de “com quem você goza?” sem nos ocuparmos com “como você goza?”, “quais as condições para o seu prazer?”. É útil ter uma bruxa a se perseguir, seja ela o homossexual, o gordo, o tabagista, o direitista, o esquerdista, etc., porque é trabalhoso ir abaixo da superfície.

Alguns filmes retratam mais ou menos esta experiência temporal das emoções. O mais próximo que me ocorre é o divertido Feitiço do tempo, com Bill Murray, ou o recente No limite do amanhã. Em ambos os casos, o que nos chama a atenção e nos envolve não é a repetição, mas a mudança que se opera, esperançosa e triunfante, de quebrar o coágulo do tempo. E em ambos os casos, o tempo e o indivíduo são sempre duas instâncias separadas, o indivíduo está preso no tempo. O contrário disto, o tempo preso no indivíduo, é o mais próximo do que ocorre com as emoções.

Penso, assim, que é útil uma outra leitura da afirmação comum “o inconsciente é atemporal”, usada para dizer que ele não tem tempo definido. Entendo que na escrita de Freud o inconsciente é um sempre, transitando entre passado e futuro, que acontece a cada instante, agora. Esta noção de tempo é essencial para entender a relação entre amor e dor.

Adoecer de amor

     Como dito anteriormente, coisa e pessoas, hobbies, trabalhos e projetos que alimentamos ou deixamos, aqueles com os quais mantemos uma certa distância platônica, temos casos sazonais, relações de prazer e ódio, são também objetos de amor, e formas de amar. Embora sejam de naturezas diferentes, o que sugere uma discrepância em equalizar o banal e o catastrófico, eles não encontram grande distância na vida psíquica. Todos dão testemunho do descompasso entre o investimento que deles é feito e a expectativa de que correspondam. Neste descompasso com os objetos de amor encontramos desde os casais e os solavancos amorosos das diferenças que colidem, até o peso cotidiano dos projetos e trabalhos que tem ritmo próprio, avessos ao desejo de quem neles se envolvem. Freud usará a expressão “perda do ser amado” mais comumente nos últimos anos de sua vida. É encontrada com mais frequência a partir de 1925, quando sua linguagem científica cede lugar a uma linguagem mais poética.


O sofrimento nos ameaça de três lados: no nosso próprio corpo, destinado à decadência e à dissolução(...); do lado do mundo exterior, que dispõe de forças invencíveis e incansáveis para nos perseguir e aniquilar; e, finalmente, de nossa relação com os seres humanos. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Freud, 1930. Mal-estar na civilização, v. XXI

A possível solução para o sofrimento de que corremos risco na relação com o outro é o amor ao próximo, que é duplamente inviável.

Meu amor, para mim, é algo de valioso, que eu não devo jogar fora sem reflexão. A máxima me impõe deveres para cujo cumprimento devo estar preparado e disposto a efetuar sacrifícios. Se amo uma pessoa, ela tem de merecer meu amor de alguma maneira. (Não estou levando em consideração o uso que dela posso fazer, nem sua possível significação para mim como objeto sexual, de uma vez que nenhum desses dois tipos de relacionamento entra em questão onde o preceito de amar meu próximo se acha em jogo.)... Se, no entanto, devo amá-lo (com esse amor universal) meramente porque ele também é um habitante da Terra, assim como o são um inseto, uma minhoca ou uma serpente, receio então que só uma pequena quantidade de meu amor caberá à sua parte – e não, em hipótese alguma, tanto quanto, pelo julgamento de minha razão, tenho o direito de reter para mim. Qual é o sentido de um preceito enunciado com tanta solenidade, se seu cumprimento não pode ser recomendado como razoável? 


E conclui:

Nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor. Freud, 1930. Mal-estar na civilização, v. XXI

A ideia de que amemos o próximo e esperemos ser por ele amados, como fórmula para a felicidade, é duplamente inviável primeiro porque não é possível amar o próximo, e, se escolhemos um “próximo especial” para amar acima dos outros, estamos em risco aumentado. Quanto mais amamos, mais estamos em risco de sofrer, pela imprevisibilidade do próximo.

 Pega, mas não se apega

Em outro artigo, Inibições, sintomas e ansiedade (1925), considerando clinicamente a mesma questão da perda do objeto amado, Freud propõe que a dor é a resposta à perda efetiva da pessoa amada, e que a angústia é a resposta à ameaça de uma perda possível. Gosto da sabedoria popular, expressa na fórmula “pega, mas não se apega”. É um aviso que diz “goze este encontro, siga o princípio de prazer, mas fique atento para não estabelecer laços emocionais, não se permita ser investido de libido por este objeto, controle suas catexias”. Adriana Calcanhotto canta bem o problema na canção Maresia.




O meu amor me deixou
levou minha identidade 
não sei mais bem onde estou 
nem onde há realidade 

Ah, se eu fosse marinheiro 
era eu quem tinha partido 
mas meu coração ligeiro 
não se teria partido

ou se partisse colava 
com cola de maresia 
eu amava e desamava 
surpreso e com poesia 


Se fosse marinheiro, não seria eu quem sofreria, mas o outro, pois eu é que partiria, e se, por acidente, tivesse me apegado, meu luto seria breve.
O luto é um lento desinvestimento, que devagar enfraquece a imagem do amado efetivamente desaparecido, retirado, e do qual resta uma imagem, como a  Charing Cross do exemplo de Freud. Esta imagem que resta é semelhante a um membro fantasma, que puxa para si, em efeito de sucção, a energia do indivíduo, depositada em outras representações (outras relações).

E agora, como se explicam os efeitos da melancolia? A melhor descrição dos mesmos: inibição psíquica, com empobrecimento pulsional e o respectivo sofrimento.
Podemos imaginar que, quando o ps. G. [grupo sexual psíquico] se defronta com uma grande perda da quantidade de sua excitação, pode acontecer uma retração para dentro (por assim dizer) na esfera psíquica, que produz um efeito de sucção sobre as quantidades de excitação vizinhas. Os neurônios associados são obrigados a desfazer-se de sua excitação, o que produz sofrimento. Desfazer associações é sempre doloroso. Com isso, instala-se um empobrecimento da excitação – uma hemorragia interna, por assim dizer – que se manifesta nas outras pulsões e funções. Essa retração para dentro atua de forma inibidora, como uma ferida, num modo análogo ao da dor. Freud, Extrato dos documentos dirigidos a Wilhem Fliess. 1895-99, v. I.


Encrencas que param a vida, encrencas que inventam vida


Uma professora querida costumava dizer que há dois tipos de encrenca, as que param a vida, e as que inventam vida. As que param, já conhecemos. Tempo e trabalho, associados, como oferece a psicoterapia, permitem não o apagamento de um registro doloroso, ou sua evitação, mas uma travessia pela dor, e o consequente enfraquecimento da lembrança, permitindo que no tempo interno exista um ontem. As palavras agem, assim, como agentes desaglutinantes que bucam desfazer os coágulos de libido e flexibilizá-la, permitindo fluxo e nova busca e novos investimentos em outros objetos. As palavras cavam na massa de libido cristalizada caminhos e espaços para o novo. Assim, como o irmão que vive, no mito acima, inventar um amanhã.


Para que não fique longo demais, muitos pontos interessantes ficarão de fora deste post, como a manifestação em sintomas e inibições da dor de amar, assim como a visão de Freud sobre a angústia e a ansiedade enquanto ameaça da retirada do objeto de amor. Para isto, sugiro conferir Inibições, sintomas e ansiedade. Também ficou de fora a participação ativa do outro (o analista) em um processo de cura através do amor, neste caso Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1905, vol IX) é boa referência. Édipo fica pra próxima. Usei na escrita deste texto os textos referidos acima, assim como escritos de J-D Nasio e anotações de estudo das aulas com Fátima Milnitzsky, do Sedes Sapientiae.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

O tema do amor em Freud parte 1

     O que diz Freud sobre o amor?




O tema do amor é uma constante em Freud, desde suas primeiras observações pré-psicanalíticas sobre sofrimento e adoecimento psíquico e mais tarde e especialmente em escritos posteriores. Uma vez que o amor é elemento essencial tanto no adoecimento quanto no tratamento e cura psíquicos, é preciso saber do próprio Freud sua definição de amor.

“Em sua origem, função e relação com o amor sexual, o ‘Eros’ do filósofo Platão coincide exatamente com a força amorosa, a libido da psicanálise, tal como foi pormenorizadamente demonstrado por Nachmansohn (1915) e Pfister (1921), e, quando o apóstolo Paulo, em sua famosa Epístola aos Coríntios, louva o amor sobre tudo o mais, certamente o entende no mesmo sentido ‘mais amplo’. Mas isso apenas demonstra que os homens nem sempre levam a sério seus grandes pensadores, mesmo quando mais professam admirá-los. A psicanálise, portanto, dá a esses instintos amorosos o nome de instintos sexuais, a posteriori e em razão de sua origem. Muitas pessoas ‘instruídas’ encararam essa nomenclatura como um insulto e fizeram sua vingança classificando a psicanálise como ‘pansexualismo’. Qualquer pessoa que considere o sexo como algo mortificante e humilhante para a natureza humana está livre para empregar as expressões mais polidas ‘Eros’ e ‘erótico’. Eu poderia ter procedido assim desde o começo e me teria poupado muita oposição. Mas não quis fazê-lo, porque me não me agrada fazer concessões à covardia. Nunca se pode dizer até onde esse caminho nos levará; cede-se primeiro em palavras e depois, pouco a pouco, em substância também. Não posso ver mérito algum em se ter vergonha do sexo; a palavra grega ‘Eros’, destinada a suavizar a afronta, ao final nada mais é do que tradução de nossa palavra alemã Liebe [amor], e finalmente, aquele que sabe esperar não precisa fazer concessões.
  
     Tentaremos nossa sorte, então, com a suposição de que as relações amorosas (ou, para empregar expressão mais neutra, os laços emocionais) constituem também a essência da mente grupal.
In: Psicologia de grupo e análise do ego, 1921,  vol XVIII

Assim, quando Freud diz que “as relações amorosas, ou se preferirmos, os laços emocionais, constituem também a essência da mente grupal”, sem dúvida é porque constituem primeiramente a essência da mente individual. Eros é, portanto, um conceito extenso para Freud e está presente em todas as relações humanas, se mantivermos o pressuposto de que em toda relação há afetos e emoções. Trata-se, portanto, do mesmo objeto que pode ser traduzido em termos diferentes de acordo com a perspectiva (ou a preferência): Eros = instintos sexuais = investimentos libidinais = instintos amorosos = laços emocionais.
Embora Freud tenha insistido em defender sua visão de um Eros amplo, de modo geral ainda permanece a visão prosaica de que a sexualidade em seu trabalho sempre se refere a uma hiper-genitalização – tudo é sexo!

O leitor reencontrará a referência ao Eros de Platão, quase inalterada, nos 3 ensaios (1905), e em sua troca de correspondência com Einstein (Por quê a guerra?, 1932), e verá ao longo de seus escritos  um Freud que transita entre a neurobiologia e a poesia, à medida que descobre e constrói uma ferramenta capaz de explorar o amplo campo do amor.

“Com frequência muito especial verifica-se que os melancólicos são anestésicos. Não têm necessidade de relação sexual (e não têm a sensação correlata). Mas têm um grande anseio pelo amor em sua forma psíquica - uma tensão erótica psíquica, poder-se-ia dizer”.  (Trecho retirado do RASCUNHO E: COMO SE ORIGINA A ANGÚSTIA, vol I das Obras completas, escrito entre 1892 e 1899, e é uma entre muitas outras anotações de um Freud pré-psicanalítico, em um período equivalente a uma “corrida do ouro da psicopatologia”, em que ele como tantos outros aventureiros começavam a tentar entender o funcionamento da psique)


Distorções do desejo

Precisamos primeiro aqui de dois conceitos, o primeiro é investimento. Penso que as palavras dão testemunho da distorção que o desejo lhes causa à medida que aproxima “quero que seja” e “é”. Acredito que um exemplo disto é a palavra investimento. De modo geral nossa noção de investimento é confortavelmente monetária: depositar dinheiro/energia em um objeto externo, o que pode resultar em ganho ou perda de capital. Originalmente, em psicanálise e na escrita de Freud, o sentido de investimento/catexia é o oposto: ser ocupado por algo que invade, espalha-se, e toma, ocupa.

Basicamente, somos cofrinhos no qual moedas feitas de nossa própria energia vão se enfiando à nossa revelia. Somos ocupados por nossos objetos de amor, que são criados por nós mesmos, e que agem como soldados de um exército de ocupação. Temos aqui o segundo conceito, objeto. Tomamos objeto por algo inanimado e manipulável, penso que o mesmo acontece em expressões como objeto sexual, com o sentido de “faço disto o que quiser, sou o senhor que controla e sou invulnerável”. Quem dera! Embora haja diferentes e elaboradas noções de objeto, há algo em comum entre elas: são alheios a nosso desejo, fugidios, e de grande plasticidade. No desenho animado, quando Tom pega Jerry, o ratinho abre um impossível e divertido zíper em meio às mãos do gato e escapa, se Tom consegue se livrar de Jerry, fica entediado, e precisa busca-lo de volta, se Tom desiste de perseguir Jerry, o ratinho vem provoca-lo, coloca em suas mãos um taco de baseball e começam novamente sua rotina.



“Eu te amo, cara”

Guardo com carinho uma anedota de bar contada por um amigo. Sentado em uma mesa próxima, ele acompanhou a conversa entre dois camaradas que, tomando cerveja, queixavam-se de suas esposas e confirmavam o tempo todo como os dois, juntos ali, bebendo, papeando e compartilhando seu universo comum era algo muito superior às suas vidas conjugais. Sempre que o dono do bar, figura muito bem humorada e de sabedoria particular, provavelmente decorrente de anos de escuta de buteco, vinha para trazer outra garrafa cheia à mesa, os amigos pediam sua confirmação: “Mulher só dá trabalho, é ou não é?”, “Nada como bater uma bolinha e conversar do que interessa, é ou não é?”. Depois de muitas cervejas e muitos pedidos de confirmação, o dono do bar perde a paciência, e diz: “É, vocês então vão sair pra jogar bola juntos, tomar cerveja juntos, conversar, aí, no fim da noite, vocês vão pra casa e dormem juntos também, que tal?” Ficaram indignados. “Ô loco, cara! Que história é essa!” Mas passaram horas fazendo declarações de amor um pro outro, dizendo “o que há entre nós é especial, o prazer que tenho com você, não tenho em casa”. Faltou só um “Eu te amo, cara”. O que o dono do bar pergunta, genialmente, é “Até onde vai o amor de vocês”? A resposta é simples. Surpreendidos com a situação, os amigos reafirmam a forma como decidiram delimitar e realizar seu amor – seus instintos sexuais, ou, se preferirmos, seus laços emocionais, não terão uma realização genital.

Menos sorte teve Daniel-Paul Schreber, famoso caso de enlouquecimento de um prestigiado juiz que, em sua autobiografia Memória de um doente dos nervos, faz uma detalhada descrição da perda de sua sanidade e do intrincado sistema religioso que construiu, no qual ele seria fecundado por Deus e geraria uma nova raça de homens. O próprio Schreber identificava o ponto em que a doença irrompeu como o momento em que lhe surge um pensamento: “seria bom ser uma mulher no ato da cópula”.  Deste ponto em diante, seu mundo se fragmenta em delírios de perseguição, especialmente direcionados ao médico que lhe ajudou em duas internações, o Dr. Flechsig, a quem ele havia se afeiçoado muito. Na leitura de Freud, Flechsig representava  inconscientemente uma figura paterna, e o afeto era indício de uma transferência (sic) homossexual, uma expressão, inaceitável para Schreber, de amor pelo mesmo sexo.
   
                         

                                                Bromance ou romance?

          O amor em si não sabe ao que pode e ao que não pode se ligar. O amor não se manifesta com um julgamento de adequação, o amor passa por um julgamento de adequação, em que buscamos decidir e permitir o que e como amar. 


(fim da parte 1, na próxima, Amor e dor, e Édipo)


Textos visitados para o post:

Freud: Rascunho  E: como se origina a angústia, vol I; Três ensaios sobre a sexualidade, 1905; Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia, 1911; Psicologia de grupo e análise do ego, 1921;  Por que a guerra? 1932. Laplanche & Pontalis, Vocabulário da psicanálise; Hanns, Dicionário comentado do alemão de Freud.