sexta-feira, 21 de março de 2014
Amai o próximo como a ti mesmo
Dia desses em conversa de bar, ouvi de um amigo sua teoria sobre um dos elementos do sucesso do Porta dos Fundos. De acordo com ele é, predominantemente, um humor de identificação, e não de estranhamento. Ao assistir, o espectador reencontra elementos de sua vida cotidiana e se reconhece “também me sinto assim, também passei por isso”. Que é basicamente “Como é gostoso ver meu drama encenado na internet, e que delícia saber que o mundo é igual a mim”. Cafuné no narcisismo.
Em seu artigo sobre o narcisismo (1914) Freud aponta três tipos de amor narcísicos:
(1) a pessoa ama o que ela é,
(2) a pessoa ama o que ela foi e
(3) a pessoa ama o que ela gostaria de ser.
Assim, o narcisismo é em parte amor por si e em parte amor pelo outro, desde que ele espelhe a si mesmo ou mostre o que gostaríamos de ser/ter. Uma vez escolhido o objeto (homem ou mulher, com as características desejadas), o indivíduo sente realização ao encontrar um igual ou ao encontrar espelhado no outro o complemento que idealizava.
Diante da possibilidade de criar algo sem considerar o público, a primeira pergunta que eu faria seria é “Quem em sã consciência cria um produto para aborrecer o outro?”. Mas não se trata de planejar intencionalmente o aborrecimento alheio, mas de um processo criativo que não tenha como finalidade primeira o sucesso do consumo. Lembro-me de outra conversa com amigos que comentavam sobre como achavam absurda a condição do professor diante do desrespeito dos alunos e arrogância dos pais na situação de ensino, remetendo a relação professor-aluno/família ao pervasivo “Você é pago para isso, faça seu trabalho”. Não só entendo as crianças e os pais, como penso que estão certos em sua expectativa sobre os produtos que consomem. A lógica de “O cliente tem sempre razão” se estende a todas as relações que passam pelo dinheiro e ainda outras. Sob a bandeira da flexibilidade e especificidade das necessidades individuais os produtos vão sendo moldados para a satisfação do cliente, e o cliente vai sendo convidado a ser satisfeito em sua expectativa. Entendo que é a troca sutil de liberdade por aceitação.
Meu dicionário etimológico me conta que, no começo do século 15, em latim , producere significava “desenvolver, proceder, extender; gerar, fazer surgir, trazer/guiar à existência”. Entendo que hoje o sentido comum de produto está diretamente ligado a um processo de falsa alfaiataria, um fazer sob medida que almeja garantir o consumo através da venda, em meio à concorrência.
Não saberei retomar o exato diálogo, mas resgato uma situação. Em apresentação ocorrida anos atrás na Unifran, de Franca, uma professora falava da relação entre o analista e seu paciente, e de como recebê-lo. Alguém da plateia comentou que para ela aquilo correspondia ao ditado “amai ao próximo como a ti mesmo”. A professora não concordava, e disse que considerava uma forma de torpe de violência amar o próximo como a si mesmo, pois é oferecer ao outro o que eu espero que ele deseje, sem que haja espaço de fato para sequer saber o que o outro deseja.
Em conclusão, me parece comum esperar e ter prazer em encontrar um mundo igual a si e não ter paladar para outras configurações.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário