O tempo psíquico
Meses
atrás, ouvindo e pensando sobre perdas e despedidas dolorosas, me vinha ao
pensamento um mito, o de criação da noite.
No início, havia dois irmãos, que
viviam sempre juntos, brincavam e caçavam em um dia ensolarado, sem fim. Em
certo momento, um deles se afasta do outro, e começa a demorar. O outro irmão
vai procura-lo e, perto de seu corpo caído, encontra um punhado de frutas e uma
serpente. Seu irmão está morto, e o irmão que está vivo terá que viver sempre
no dia que seu irmão morreu. Um deus observa a cena e, por piedade, cria a
noite. Por consequência, cria também a passagem do tempo e a chance de
esquecimento. “Faz um dia que meu irmão morreu, faz dois que meu irmão...”.
A
parte mais útil deste mito não é a invenção de um tempo externo, medido no
calendário, mas de um tempo interno,
cujo relógio é regido por leis próprias. Sem dúvida é deste tempo que Freud
fala quando diz que “os histéricos sofrem de reminiscências”. Não só os
histéricos, mas também os saudáveis sofrem por suas lembranças.
Se me permitem uma generalização – inevitável numa exposição
tão breve – podemos sintetizar os conhecimentos até agora adquiridos na
seguinte fórmula: os histéricos sofrem de reminiscências. Seus sintomas são
resíduos e símbolos mnêmicos de experiências especiais (traumáticas). Uma comparação
com outros símbolos mnêmicos de gênero diferente talvez nos permita compreender
melhor esse simbolismo. Os monumentos com que ornamos nossas cidades são também
símbolos dessa ordem. Passeando em Londres, verão, diante de uma das maiores
estações da cidade, uma coluna gótica ricamente ornamentada – a Charing Cross.
No século XIII, um dos velhos reis plantagenetas, que fez transportar para
Westminster os restos mortais de sua querida esposa e rainha Eleanor, erigiu
cruzes góticas nos pontos em que havia pousado o esquife. Charing Cross é o
último desses monumentos destinados a perpetuar a memória do cortejo fúnebre.
Em outro ponto da cidade, não muito distante da London Bridge, verão uma coluna
moderna e muito alta, chamada simplesmente ‘The Monument’, cujo fim é lembrar o
grande incêndio que em 1666 irrompeu ali perto e destruiu boa parte da cidade.
Tanto quanto se justifique a comparação, esses monumentos são também símbolos
mnêmicos como os sintomas histéricos. Mas que diriam do londrino que ainda hoje
se detivesse compungido ante o monumento erigido em memória do enterro da
rainha Eleanor, em vez de tratar de seus negócios com a pressa exigida pelas
modernas condições de trabalho, ou de pensar satisfeito na jovem rainha de seu
coração? Ou de outro que, em face do ‘Monument’ chorasse a incineração da
cidade querida, reconstruída depois com tanto brilho? Como esses londrinos
pouco práticos, procedem, entretanto, os histéricos e neuróticos: não só
recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se
prendem a eles emocionalmente; não se desembaraçam do passado e alheiam-se por
isso da realidade e do presente. Essa fixação da vida psíquica aos traumas
patogênicos é um dos caracteres mais importantes da neurose e dos que têm maior
significação prática. Freud, 1910, 5 lições de psicanálise, v. XI
Tomando
diferentes momentos de uma única pessoa, temos outro trecho como exemplo:
Parece perfeitamente normal que aos
quatro anos de idade uma menina chore penosamente se a sua boneca quebrar-se;
ou aos seis, se a governanta reprová-la; ou aos dezesseis, se for desprezada
pelo namorado; ou aos vinte e cinco, talvez, se um filho dela morrer. Cada um
desses determinantes de dor tem a sua própria época e cada um desaparece quando
essa época terminar. Somente os determinantes finais e definitivos permanecem
por toda a vida. Devemos julgar estranho se essa menina, depois de ter
crescido, se tornado esposa e mãe, fosse chorar por algum objeto sem valor que
tivesse sido danificado. Contudo, é assim que se comporta o neurótico. Freud,
1925, Inibições, sintoma e ansiedade, v. XX.
Como
o irmão do mito que permanece vivo, há partes de nós cujos relógios param ou
movem-se muito devagar, e a intensidade da dor é a mesma ou próxima do dia do
evento de nossa perda. São elementos do passado que acontecem continuamente, no agora. Assim, quem conta comovido
“perdi meu irmão dois anos atrás”, quando o conta, pode estar muito próximo,
emocionalmente, de estar dizendo “acabo de perder meu irmão” ou ainda “estou
perdendo meu irmão neste momento. Conheço e reconheço este momento, a cada vez
que ele volta”. Sei que esta imagem é pavorosa, e não tenho dúvida que muitas
das nossas distorções de vocabulário servem para mitigar pavores e assombros
semelhantes, sempre com a finalidade necessária, algo maníaca, de afirmar “está
tudo bem”. Penso que deste modo podemos abordar de forma mais achatada – plana
– questões que são poliédricas. Por exemplo, a fixação contemporânea no gênero
dos objetos de amor escolhidos, deixando de lado toda a imensa variedade de
fantasias que buscam ser satisfeitas nos alvos e metas das pulsões, ou, de modo
mais claro, nos preocupamos com a superfície de “com quem você goza?” sem nos
ocuparmos com “como você goza?”, “quais as condições para o seu prazer?”. É
útil ter uma bruxa a se perseguir, seja ela o homossexual, o gordo, o
tabagista, o direitista, o esquerdista, etc., porque é trabalhoso ir abaixo da
superfície.
Alguns
filmes retratam mais ou menos esta experiência temporal das emoções. O mais próximo
que me ocorre é o divertido Feitiço do tempo, com Bill Murray, ou o recente No
limite do amanhã. Em ambos os casos, o que nos chama a atenção e nos envolve
não é a repetição, mas a mudança que se opera, esperançosa e triunfante, de
quebrar o coágulo do tempo. E em ambos os casos, o tempo e o indivíduo são sempre
duas instâncias separadas, o indivíduo está preso no tempo. O contrário disto, o
tempo preso no indivíduo, é o mais próximo do que ocorre com as emoções.
Penso,
assim, que é útil uma outra leitura da afirmação comum “o inconsciente é
atemporal”, usada para dizer que ele não tem tempo definido. Entendo que na
escrita de Freud o inconsciente é um sempre,
transitando entre passado e futuro, que acontece a cada instante, agora. Esta noção de tempo é essencial
para entender a relação entre amor e dor.
Adoecer de amor
Como
dito anteriormente, coisa e pessoas, hobbies,
trabalhos e projetos que alimentamos ou deixamos, aqueles com os quais mantemos
uma certa distância platônica, temos casos sazonais, relações de prazer e ódio,
são também objetos de amor, e formas de amar. Embora sejam de naturezas diferentes, o que sugere uma discrepância em equalizar o banal e o
catastrófico, eles não encontram grande distância na vida psíquica. Todos dão
testemunho do descompasso entre o investimento que deles é feito e a expectativa de
que correspondam. Neste descompasso com os objetos de amor encontramos
desde os casais e os solavancos amorosos das diferenças que colidem, até o peso
cotidiano dos projetos e trabalhos que tem ritmo próprio, avessos ao desejo de
quem neles se envolvem. Freud usará a expressão “perda do ser amado” mais
comumente nos últimos anos de sua vida. É encontrada com mais frequência a partir
de 1925, quando sua linguagem científica cede lugar a uma linguagem mais
poética.
O sofrimento nos ameaça de três lados:
no nosso próprio corpo, destinado à decadência e à dissolução(...); do lado do
mundo exterior, que dispõe de forças invencíveis e incansáveis para nos perseguir
e aniquilar; e, finalmente, de nossa relação com os seres humanos. O
sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que
qualquer outro. Freud,
1930. Mal-estar na civilização, v. XXI
A possível
solução para o sofrimento de que corremos risco na relação com o outro é o amor
ao próximo, que é duplamente inviável.
Meu amor, para mim, é
algo de valioso, que eu não devo jogar fora sem reflexão. A máxima me impõe
deveres para cujo cumprimento devo estar preparado e disposto a efetuar
sacrifícios. Se amo uma pessoa, ela tem de merecer meu amor de alguma maneira.
(Não estou levando em consideração o uso que dela posso fazer, nem sua possível
significação para mim como objeto sexual, de uma vez que nenhum desses dois
tipos de relacionamento entra em questão onde o preceito de amar meu próximo se
acha em jogo.)... Se, no entanto, devo amá-lo (com esse amor universal)
meramente porque ele também é um habitante da Terra, assim como o são um
inseto, uma minhoca ou uma serpente, receio então que só uma pequena quantidade
de meu amor caberá à sua parte – e não, em hipótese alguma, tanto quanto, pelo
julgamento de minha razão, tenho o direito de reter para mim. Qual é o sentido
de um preceito enunciado com tanta solenidade, se seu cumprimento não pode ser
recomendado como razoável?
E
conclui:
Nunca nos achamos tão
indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente
infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor.
Freud, 1930. Mal-estar na civilização, v. XXI
A
ideia de que amemos o próximo e esperemos ser por ele amados, como fórmula para
a felicidade, é duplamente inviável primeiro porque não é possível amar o
próximo, e, se escolhemos um “próximo especial” para amar acima dos outros,
estamos em risco aumentado. Quanto mais amamos, mais estamos em risco de sofrer,
pela imprevisibilidade do próximo.
Pega, mas não se apega
Em
outro artigo, Inibições, sintomas e ansiedade (1925), considerando clinicamente
a mesma questão da perda do objeto amado, Freud propõe que a dor é a resposta à
perda efetiva da pessoa amada, e que
a angústia é a resposta à ameaça de uma
perda possível. Gosto da sabedoria popular, expressa na fórmula “pega, mas
não se apega”. É um aviso que diz “goze este encontro, siga o princípio de
prazer, mas fique atento para não estabelecer laços emocionais, não se permita ser
investido de libido por este objeto, controle suas catexias”. Adriana
Calcanhotto canta bem o problema na canção Maresia.
O meu amor me deixou
levou minha identidade
não sei mais bem onde estou
nem onde há realidade
Ah, se eu fosse marinheiro
era eu quem tinha partido
mas meu coração ligeiro
não se teria partido
ou se partisse colava
com cola de maresia
eu amava e desamava
surpreso e com poesia
Se fosse marinheiro, não seria eu quem sofreria, mas o outro, pois eu é que partiria, e se, por acidente, tivesse me apegado, meu luto seria breve.
levou minha identidade
não sei mais bem onde estou
nem onde há realidade
Ah, se eu fosse marinheiro
era eu quem tinha partido
mas meu coração ligeiro
não se teria partido
ou se partisse colava
com cola de maresia
eu amava e desamava
surpreso e com poesia
Se fosse marinheiro, não seria eu quem sofreria, mas o outro, pois eu é que partiria, e se, por acidente, tivesse me apegado, meu luto seria breve.
O
luto é um lento desinvestimento, que devagar enfraquece a imagem do amado efetivamente
desaparecido, retirado, e do qual resta uma imagem, como a Charing Cross do exemplo de Freud. Esta
imagem que resta é semelhante a um membro fantasma, que puxa para si, em efeito
de sucção, a energia do indivíduo, depositada em outras representações (outras
relações).
E
agora, como se explicam os efeitos da melancolia? A melhor descrição dos
mesmos: inibição psíquica, com empobrecimento pulsional e o respectivo
sofrimento.
Podemos
imaginar que, quando o ps. G. [grupo sexual psíquico] se defronta com uma
grande perda da quantidade de sua excitação, pode acontecer uma retração
para dentro (por assim dizer) na esfera psíquica, que produz um efeito de
sucção sobre as quantidades de excitação vizinhas. Os neurônios associados
são obrigados a desfazer-se de sua excitação, o que produz sofrimento. Desfazer
associações é sempre doloroso. Com isso, instala-se um empobrecimento da
excitação – uma hemorragia interna, por assim dizer – que se manifesta
nas outras pulsões e funções. Essa retração para dentro atua de forma
inibidora, como uma ferida, num modo análogo ao da dor. Freud, Extrato dos
documentos dirigidos a Wilhem Fliess. 1895-99, v. I.
Encrencas que param a
vida, encrencas que inventam vida
Uma
professora querida costumava dizer que há dois tipos de encrenca, as que param
a vida, e as que inventam vida. As que param, já conhecemos. Tempo e trabalho,
associados, como oferece a psicoterapia, permitem não o apagamento de um
registro doloroso, ou sua evitação, mas uma travessia
pela dor, e o consequente enfraquecimento da lembrança, permitindo que no
tempo interno exista um ontem. As palavras agem, assim, como agentes desaglutinantes
que bucam desfazer os coágulos de libido e flexibilizá-la, permitindo fluxo e nova busca e novos investimentos em outros objetos. As palavras cavam
na massa de libido cristalizada caminhos e espaços para o novo. Assim, como o irmão que vive, no mito acima, inventar um amanhã.
Para
que não fique longo demais, muitos pontos interessantes ficarão de fora deste
post, como a manifestação em sintomas e inibições da dor de amar, assim como a
visão de Freud sobre a angústia e a ansiedade enquanto ameaça da retirada do
objeto de amor. Para isto, sugiro conferir Inibições, sintomas e ansiedade.
Também ficou de fora a participação ativa do outro (o analista) em um processo
de cura através do amor, neste caso Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen
(1905, vol IX) é boa referência. Édipo fica pra próxima. Usei na escrita deste texto os textos referidos acima, assim como escritos de J-D Nasio e anotações de estudo das aulas com Fátima Milnitzsky, do Sedes Sapientiae.
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