Observe o brincar das crianças.
Passam horas definindo as regras de suas brincadeiras, posicionando brinquedos,
ou simplesmente absortas, profundamente envolvidas com seja lá qual for seu
objeto de jogo no momento.
Em O poeta e o fantasiar, artigo
de Freud pessimamente traduzido para o português como Escritores criativos e devaneios, Freud diz que não há oposição
entre brincadeira e seriedade - brincadeira é fantasia, o que se opõe à
fantasia é a realidade.
A antítese de brincar não
é o que é sério, mas o que é real. Apesar de toda a emoção com que a criança
investe seu mundo de brinquedo, ela o distingue perfeitamente da realidade, e
gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e
tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’
infantil do ‘fantasiar’. (Freud, 1907)
A seriedade
dos adultos
Seriedade pode ser lida como
tipos de respeito diferentes, de um lado é a apropriação íntima de um objeto
(pegarei isto para brincar), e assim, é possível investigá-lo, desmontá-lo,
explorá-lo, ou em perspectiva oposta, tratá-lo com outro um tipo particular de
respeito, que é a reverência que se tem aos tabus e dogmas – não são para
tocar, você aprende e reproduz. Lembro-me de minha surpresa em uma das bienais
de arte de São Paulo em que, cercado por obras que vinham sempre com o aviso
‘Proibido tocar’, deparei com Os bichos de Lygia Clark, expostos sobre uma mesa
com os dizeres, ‘Por favor, toque’.
Tanto em O poeta e o fantasiar quanto em O humor (1927), Freud aponta
como a possibilidade de brincar com a realidade pede um equilíbrio dinâmico
entre extremos. Se nos aproximamos demais da fantasia, perdemos a condição de
diálogo com o mundo externo e de viver em alguma sintonia com outros indivíduos
cuja frequência, como no rádio, permita entender e transmitir ideias e emoções.
Se nos aproximamos demais da realidade perdemos a condição de criar, adquirimos
automatismo funcional concreto, sem abstração.
Entre extremos
Em O humor, Freud retoma uma piada
de que gostava: “Um criminoso, levado à forca numa segunda-feira,
comenta: ‘Bem, a semana está começando otimamente’”, e
apresenta assim um aspecto inusitado do superego, como uma instância que pode
dizer ao ego “Veja! Aqui está o mundo, que
parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças, digno apenas que sobre
ele se faça uma boa piada!”.
A brincadeira e
o humor são recursos preciosos que Freud discute nos dois artigos mencionados,
que retomam questões abertas em Os
chistes e sua relação com o inconsciente (1905), e deixa em aberto algumas
questões que são de interesse para os clínicos: (1) O extremo da comédia, fazer
piada de tudo, convida ao esvaziamento e dissociação da importância das
experiências vividas, como um recurso de defesa que economiza ao indivíduo
sofrer o afeto enquanto o mantém distante dele; (2) O desejo de corresponder à
realidade e abraçar as responsabilidades da vida e do trabalho (obrigações,
contas, vida social, etc.) dos meios aos quais nos filiamos nos aproxima de uma
mortificação melancólica ao constatar que o mundo tem características pavorosas
que nos interpelam o tempo todo com abuso sexual, violência doméstica, morte,
doenças terminais, assassinato, corrupção e mais, sem evitar o convite ao
distanciamento da realidade através da idealização da norma, manifesta em uma
supervalorização das leis e da religião.
Recordo-me
sempre de um professor muito querido que contava que, em viagem pela América
Latina deparou em um restaurante com a pintura de um palhaço sobre um triciclo,
em uma corda bamba, com dizeres em vermelho escritos na tela “Ai Jesus, que
equilíbrio tu me pedes”. Não escapamos da necessidade de uma medida de transgressão,
entre o imperativo de aproximarmo-nos das regras e, na outra extremidade,
exercitar uma criatividade rebelde entre elementos da vida de naturezas
diferentes como os brinquedos das crianças: o sucesso dos quebra-cabeças
consiste em desvendar regras fixas e segui-las, os blocos de Lego oferecem
regras fixas de encaixe, mas com combinações infinitas, e é sempre possível,
numa sala de aula, dobrado durante anos a fio numa carteira escolar, em algum
momento, juntar uma caneta BIC e uma régua e fazer um avião.
ps.: Feliz aniversário, caro
Sigmund
Textos visitados e
recomendados:
Freud: Os chistes e sua relação
com o inconsciente (1905); Escritores criativos e devaneios (1907); O humor
(1927); Henri Bergson: Ensaio sobre a significação do cômico (1900); Daniel
Kupermann: Ousar rir (2003)