terça-feira, 6 de maio de 2014

Seriedade e brincadeira

Observe o brincar das crianças. Passam horas definindo as regras de suas brincadeiras, posicionando brinquedos, ou simplesmente absortas, profundamente envolvidas com seja lá qual for seu objeto de jogo no momento.
Em O poeta e o fantasiar, artigo de Freud pessimamente traduzido para o português como Escritores criativos e devaneios, Freud diz que não há oposição entre brincadeira e seriedade - brincadeira é fantasia, o que se opõe à fantasia é a realidade.

A antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real. Apesar de toda a emoção com que a criança investe seu mundo de brinquedo, ela o distingue perfeitamente da realidade, e gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’ infantil do ‘fantasiar’. (Freud, 1907)

A seriedade dos adultos

Seriedade pode ser lida como tipos de respeito diferentes, de um lado é a apropriação íntima de um objeto (pegarei isto para brincar), e assim, é possível investigá-lo, desmontá-lo, explorá-lo, ou em perspectiva oposta, tratá-lo com outro um tipo particular de respeito, que é a reverência que se tem aos tabus e dogmas – não são para tocar, você aprende e reproduz. Lembro-me de minha surpresa em uma das bienais de arte de São Paulo em que, cercado por obras que vinham sempre com o aviso ‘Proibido tocar’, deparei com Os bichos de Lygia Clark, expostos sobre uma mesa com os dizeres, ‘Por favor, toque’.



Tanto em O poeta e o fantasiar quanto em O humor (1927), Freud aponta como a possibilidade de brincar com a realidade pede um equilíbrio dinâmico entre extremos. Se nos aproximamos demais da fantasia, perdemos a condição de diálogo com o mundo externo e de viver em alguma sintonia com outros indivíduos cuja frequência, como no rádio, permita entender e transmitir ideias e emoções. Se nos aproximamos demais da realidade perdemos a condição de criar, adquirimos automatismo funcional concreto, sem abstração.

Entre extremos

Em O humor, Freud retoma uma piada de que gostava: “Um criminoso, levado à forca numa segunda-feira, comenta: ‘Bem, a semana está começando otimamente’”, e apresenta assim um aspecto inusitado do superego, como uma instância que pode dizer ao ego “Veja! Aqui está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças, digno apenas que sobre ele se faça uma boa piada!”.
A brincadeira e o humor são recursos preciosos que Freud discute nos dois artigos mencionados, que retomam questões abertas em Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), e deixa em aberto algumas questões que são de interesse para os clínicos: (1) O extremo da comédia, fazer piada de tudo, convida ao esvaziamento e dissociação da importância das experiências vividas, como um recurso de defesa que economiza ao indivíduo sofrer o afeto enquanto o mantém distante dele; (2) O desejo de corresponder à realidade e abraçar as responsabilidades da vida e do trabalho (obrigações, contas, vida social, etc.) dos meios aos quais nos filiamos nos aproxima de uma mortificação melancólica ao constatar que o mundo tem características pavorosas que nos interpelam o tempo todo com abuso sexual, violência doméstica, morte, doenças terminais, assassinato, corrupção e mais, sem evitar o convite ao distanciamento da realidade através da idealização da norma, manifesta em uma supervalorização das leis e da religião.
Recordo-me sempre de um professor muito querido que contava que, em viagem pela América Latina deparou em um restaurante com a pintura de um palhaço sobre um triciclo, em uma corda bamba, com dizeres em vermelho escritos na tela “Ai Jesus, que equilíbrio tu me pedes”. Não escapamos da necessidade de uma medida de transgressão, entre o imperativo de aproximarmo-nos das regras e, na outra extremidade, exercitar uma criatividade rebelde entre elementos da vida de naturezas diferentes como os brinquedos das crianças: o sucesso dos quebra-cabeças consiste em desvendar regras fixas e segui-las, os blocos de Lego oferecem regras fixas de encaixe, mas com combinações infinitas, e é sempre possível, numa sala de aula, dobrado durante anos a fio numa carteira escolar, em algum momento, juntar uma caneta BIC e uma régua e fazer um avião.

ps.: Feliz aniversário, caro Sigmund

Textos visitados e recomendados: 
Freud: Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905); Escritores criativos e devaneios (1907); O humor (1927); Henri Bergson: Ensaio sobre a significação do cômico (1900); Daniel Kupermann: Ousar rir (2003)